Tempo de parar. Tempo de agir.
E se for os dois?

Cristina Correia
Psicologia da Carreira

Encontrar o equilíbrio certo na procura de emprego durante as férias.

Há alturas do ano que nos obrigam a pensar de forma diferente.
As férias de Verão são uma dessas alturas.

Com o abrandamento natural dos ritmos profissionais, surgem oportunidades raras: mais silêncio, menos ruído externo, e talvez – pela primeira vez em meses – tempo para pensar com clareza.
Mas esse abrandamento pode levantar uma dúvida: deve a procura de emprego seguir o mesmo ritmo? Ou é precisamente agora que faz sentido agir com mais intenção?

Não há uma resposta única. Mas há formas mais conscientes de abordar essa questão – e isso começa por observar dois fatores fundamentais: o seu momento pessoal e a dinâmica real do mercado.

Começa por si, não pelo mercado

Antes de tomar decisões sobre o que “deve” fazer, importa perceber o que pode fazer – e o que faz sentido agora.

Que fase está a viver? Está exausta ou ainda com energia para se dedicar à procura?
Há urgência na mudança?

É possível parar com tranquilidade – ou parar significa adiar algo que já se arrasta há demasiado tempo?

As suas respostas a estas perguntas são mais valiosas do que qualquer conselho genérico.
Há pessoas que precisam de uma pausa para recuperar clareza e motivação. Outras encontram precisamente nas férias o momento ideal para repensar estratégias, ajustar rotas ou agir com mais foco.

Ambas as decisões podem ser acertadas – desde que não venham do piloto automático.

E o mercado? Está mesmo parado?

Existe um mito persistente: o de que nada acontece no mercado de trabalho durante o Verão.

É verdade que há um abrandamento (funções não sazonais) – muitos decisores entram de férias e alguns processos são adiados –, mas isso não significa que tudo pára.
Segundo especialistas de recrutamento, como a Hays e a Randstad, muitos setores – nomeadamente tecnologia, saúde e serviços – mantêm processos abertos nesta altura do ano.

Além disso, o volume de candidaturas tende a baixar, o que pode traduzir-se em menos concorrência direta para quem se mantém ativo (Hays, 2023; Randstad, 2022).

Em termos simples: há menos vagas, mas também menos candidaturas.
O que representa uma oportunidade para quem souber manter alguma visibilidade com inteligência.

O que significa “agir” nesta fase?

Continuar em movimento não significa sobrecarregar-se.
Pode ser um momento ideal para ações de bastidores – muitas vezes mais eficazes do que candidaturas em série:

  • Rever o seu CV e perfil no LinkedIn
  • Ajustar os critérios da procura
  • Fazer networking leve (enviar mensagens, marcar cafés informais)
  • Atualizar-se sobre tendências no setor
  • Reestruturar um plano de ação para o regresso

Estas são formas de agir sem atropelar o momento de pausa.
Permitem manter o rumo, mesmo que a velocidade seja outra.

E quando é melhor parar?

Pausar pode ser um ato de inteligência profissional.
É o que permite evitar o desgaste, recuperar perspectiva e tomar decisões mais alinhadas – algo essencial num processo de transição.

A ciência confirma isso.
Um estudo da University of Illinois mostrou que pausas programadas durante tarefas cognitivas aumentam significativamente a capacidade de foco e retenção de informação (Ariga & Lleras).
E mais amplamente, a investigação em psicologia organizacional tem demonstrado que períodos de recuperação, mesmo que curtos, estão associados a melhores decisões, maior criatividade e redução de burnout (Sonnentag & Fritz).

Traduzido para o contexto da procura de emprego:
parar não é perder tempo – é, muitas vezes, a única forma de voltar a ganhar discernimento.

Vale a pena considerar uma pausa se:

  • Se sente física e emocionalmente esgotada
  • Está a repetir estratégias sem resultados
  • Já não consegue distinguir esforço de desorientação
  • Percebe que precisa de reaprender a descansar sem culpa

 

Pausa não é sinónimo de improdutividade.
Pode ser o passo mais importante antes de um novo ciclo com mais clareza.

O que pesa mais: a urgência ou a intenção?

A melhor resposta para esta altura do ano raramente virá de fora.
Virá da capacidade de se escutar e de alinhar a sua ação (ou pausa) com o que realmente precisa agora.

Há momentos em que continuar é sinal de determinação.
E há momentos em que parar é sinal de inteligência.

A chave está em decidir com intenção – e não por medo, comparação ou pressão social.

O tempo certo é o seu

As férias podem ser tempo de pausa.
Podem ser também tempo de planeamento, de reorganização interna, ou até de pequenos avanços estratégicos.

Mas sobretudo, podem ser o momento certo para tomar decisões com consciência, sem pressa nem culpa.

Afinal, o tempo (parece que) abranda. E isso pode ser tudo o que era preciso para finalmente voltar a ouvir-se.

Referências:

Ariga, A., & Lleras, A. (2011). Brief and rare mental breaks keep you focused: Deactivation and reactivation of task goals preempt vigilance decrements. Cognition, 118(3), 439–443.

Sonnentag, S., & Fritz, C. (2015). Recovery from job stress: The stressor–detachment model as an integrative framework. Journal of Organizational Behavior, 36(S1), S72–S103.