

Há uma crença antiga que ainda persiste – a de que o mérito é, por si só, o motor do crescimento profissional.
Acreditamos que se trabalharmos bem, entregarmos resultados e mostrarmos competência, o reconhecimento virá de forma natural. Mas a experiência (e a ciência) dizem outra coisa: o mérito é essencial, sim – mas não é suficiente.
A diferença entre quem cresce e quem estagna raramente está apenas no talento.
Está, muitas vezes, nas relações que constroem à sua volta.
É o desempenho que mostra, na prática, o seu valor.
Mas são as pessoas – as que conhecem o seu trabalho, confiam em si e a recomendam – que abrem portas.
E é aí que a estrutura “invisível” das organizações e das carreiras começa a fazer toda a diferença.
Nos bastidores de qualquer empresa coexistem duas realidades: a estrutura formal – com hierarquias, organogramas e funções – e a estrutura informal, que vive nas relações, nas conversas e nas dinâmicas de influência que ligam as pessoas.
Um estudo publicado em 2020 (On the ‘Missing Link’ Between Formal Organization and Informal Social Structure) demonstra que a rede informal atua em complementaridade com a estrutura formal – é nela que as relações, a confiança e a cooperação dão vida àquilo que os organogramas apenas desenham.
E, curiosamente, é também por ela que muitas carreiras avançam ou ficam paradas.
Não porque falte competência, mas porque as pessoas certas ainda não conhecem o valor que determinadas pessoas trazem.
A investigação tem vindo a demonstrar que as redes informais são uma infraestrutura real do conhecimento e da inovação.
Um estudo de 2021 sobre a partilha de conhecimento numa empresa na Coreia (Informal Network Structure and Knowledge Sharing in Organizations) mostrou que quanto mais diversas e interligadas forem as relações, maior a troca de informação e a colaboração efetiva.
Mais recentemente, em 2023, outro estudo (Diversity of Social Ties and Employee Innovation) reforçou a mesma ideia: a diversidade das relações está diretamente ligada à inovação individual e à aprendizagem contínua. Ou seja, quanto mais diferentes forem as pessoas com quem nos conectamos – em função, experiência ou perspetiva – mais crescemos profissionalmente.
Traduzindo para o contexto da carreira: as relações são o motor invisível do progresso.
E o crescimento acontece quando o talento encontra visibilidade e reciprocidade.
Acho que durante anos, a palavra networking foi mal compreendida – associada a eventos formais, troca de cartões e conversas forçadas.
Mas as redes que realmente fazem muita diferença não se constroem em jantares nem em mensagens automáticas de LinkedIn.
Constroem-se no dia a dia, nas relações de confiança e aprendizagem mútua.
No meu trabalho, uso o conceito Thrive Squad para descrever precisamente esse círculo de pessoas que sustentam o nosso crescimento de forma autêntica, estratégica e humana.
O Thrive Squad é mais do que uma rede de contactos. É o grupo de pessoas que:
– desafia a sua forma de pensar,
– reconhece o seu valor,
– fala bem de si quando não está presente,
– e cria oportunidades (ou visibilidade) que, sozinha, talvez não conseguisse alcançar.
O segredo não está em ter mais pessoas à volta.
Está em ter as pessoas certas e saber cuidar dessas relações/conexões com intenção.
As redes profissionais mais eficazes são as que combinam diversidade e reciprocidade.
Diversidade expande horizontes. Reciprocidade constrói confiança.
Quando um profissional se relaciona apenas com pares do mesmo nível hierárquico ou da mesma área, o campo de aprendizagem e de visibilidade torna-se limitado.
Mas quando há diversidade – colegas de outras equipas, líderes de diferentes áreas, pessoas fora da empresa, contactos do setor – as oportunidades multiplicam-se.
A reciprocidade, por sua vez, é o que mantém o ecossistema vivo.
Não se trata de “pedir ou fazer favores”, mas de contribuir, reconhecer, apoiar.
As relações mais duradouras nascem quando existe troca genuína – de ideias, de tempo, de interesse.
E é esta combinação que, segundo a investigação de 2023 referida acima, aumenta a inovação e a capacidade de aprendizagem.
Em termos simples: quanto mais diversa e recíproca for a sua rede, mais preparada estará para crescer – e para ser vista.
O primeiro passo é olhar para as relações com consciência – não em quantidade, mas em propósito.
Aqui ficam quatro perguntas que pode fazer-se:
1. Quem tem contribuído realmente para o meu crescimento profissional?
(Mentores, líderes, colegas, pessoas fora da empresa.)
2. Quem conhece o meu trabalho e poderia recomendar-me de olhos fechados?
(Se a resposta for “poucos”, há uma oportunidade de ação.)
3. Quem me desafia a pensar de forma diferente?
(As melhores ideias surgem das conversas que nos tiram do óbvio.)
4. Quem precisa de conhecer o meu valor – e ainda não conhece?
(Porque muitas vezes o próximo passo não depende de mais esforço, mas de mais visibilidade.)
Construir o seu Thrive Squad não é um projeto pontual.
É um processo contínuo de consciência, presença e generosidade.
É alinhar as suas relações com o que quer alcançar e cuidar delas com autenticidade.
As organizações mudam, os papeis mudam, os contextos também.
Mas as relações – as verdadeiramente significativas – são o que permanece.
A aceleração de carreira não acontece apenas por mérito.
Acontece quando o mérito é visto, reconhecido e apoiado.
E isso depende do seu ecossistema de relações – o seu Thrive Squad dá-lhe um grande impulso para isso.
Pense nele como um mapa invisível que liga o seu trabalho às oportunidades que ainda não estão materializadas.
E lembre-se: o próximo passo pode começar numa nova conversa.
Bunderson, J. S., & Van Der Vegt, G. S. (2020). On the “missing link” between formal organization and informal social structure. Academy of Management Review, 45(2), 374–391.
Chung, J. E., & Kim, K. (2021). Informal network structure and knowledge sharing in organizations: An empirical study of a Korean paint manufacturing company. Sustainability, 13(11), 6234.
Xue, Y., & Gu, J. (2023). Diversity of social ties and employee innovation: The importance of informal learning and reciprocity. Frontiers in Psychology, 14, 1134569.
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© 2024 | Cristina Correia